Por Arnaldo Eugênio – Doutor em Antropologia

Na madrugada deste sábado (03/01), os ataques em grande escala dos Estados Unidos da América (EUA), sem uma declaração oficial de guerra ou autorização do Congresso Americano, à soberania do Estado venezuelano e ao território (com 29 milhões de habitantes), o sequestro do presidente Nicolás Maduro e Cilia Flores, levantam mais dúvidas e incertezas do que um elogio ao imperialismo trumpista através do poderio bélico americano.
Desde à campanha para um segundo mandato, o presidente americano Donald Trump já vinha ameaçando uma invasão à Venezuela para fazer a captura do ditador Nicolás Maduro por, supostamente, liderar o Cártel de los Soles (ou Cartel dos Sóis) no narcotráfico internacional, fornecendo drogas e armas à sociedade americana. Ou os ataques dos EUA, com a velha política de “guerra às drogas”, são, na verdade, parte de um plano maior para se apossar das riquezas naturais de outros países?
O plano de ataque dos americanos utilizou 15 mil militares com dezenas de aeronaves e embarcações, para destituir do governo e do poder um ditador, cujas práticas autoritárias exigem repúdios, e levá-lo a um julgamento nos Estados Unidos. Mas, isso não resolve a situação sociopolítica de um país latino-americano com área de 916.445 km², população de 28,41 milhões e que faz fronteira com Colômbia, Brasil e Guiana.

Ao contrário, internamente, os efeitos colaterais dos ataques americanos podem gerar uma inimaginável convulsão social armada, um êxodo em massa para os países vizinhos e um embate diplomático sem precedentes entre os Estados Unidos, os países aliados e parceiros comerciais da Venezuela, os países da União Europeia e os países da América Latina – onde o governo da Argentina, Javier Milei, já comemorou o ataque dos EUA.
Politicamente, ocasionarão diversos conflitos e disputas entre a oposição, os chavistas raiz, os chavistas maduristas, os militares e os maduristas numa luta voraz pelo governo e o poder na Venezuela, com repercussões mundiais, principalmente nos países da América Latina.
Será que o mundo irá se calar outra vez, como fizera no passado, diante dos ataques militares do imperialismo ianque? Será que o mundo não se indignará com as mortes de inocentes protagonizadas pelos senhores da guerra?
Pois, desde a década de 1940 (na China) até 2011 (na Líbia), diversos presidentes dos Estados Unidos têm se utilizado de falsos discursos normativos de legalidade e de moralidade internacional, e até humanitários e/ou estratégicos, para justificar a destruição de cidades, de países, de nações e de vidas humanas sem jamais serem julgados por crimes de guerra. Por que tanta imunidade penal?
Em todos os ataques e bombardeios são desconsideradas vidas de milhares de pessoas que estão submetidas a condições ordinárias e reféns de decisões geopolíticas imperialistas, tomadas por governantes atrozes, que regozijam os seus egos com o sangue de inocentes, a espetacularização da violência e a certeza da naturalização da impunidade do sistema internacional.
A suposta acusação de narcotráfico para “legitimar” a agressão à Venezuela pelo Estados Unidos abre uma “caixa de pandora” perigosa, que afeta indiretamente outros países. Pois, deixa margem para que os Estados Unidos perpetrem, no futuro, outras violações do direito internacional, em nome da sanha imperialista americana, principalmente no Hemisfério Sul.
Portanto, nada justifica a afronta gravíssima do ataque dos EUA à soberania e o sequestro do presidente (e da esposa) da Venezuela, a pretexto de “salvar” o povo venezuelano de um ditador – cujas práticas autoritárias exigem repúdios – e, assim, naturalizar a violência perpetrada por governos fascistas, especialmente na América Latina. E, no caso, transformar a figura do presidente Donald Trump como um paladino do justiçamento internacional.
